Não conhecia bem aquelas pessoas, mas o tema da conversação era-me muito familiar: Pavor de Solidão.
As opiniões se multiplicavam, mas não havia divergência. A concordância criava clima amistoso que todos pareciam desfrutar com satisfação. Um sentimento acabava de unir o grupo: Pavor de Solidão.
Uma senhora de olhar irrequieto ganhou oportunidade de se expressar aproveitando o descuido de sua antecessora que fez uma pausa para tomar fôlego e revelou: “Jamais passei uma tarde sozinha em casa”. Se não havia compromissos à cumprir, inventava um. Outra muito hábil em interromper a conversa para causar impacto (e conseguiu, pelo menos em mim) confessou que para livrar-se do clima depressivo que o entardecer lhe envolvia, aceitava até companhia de pessoas desagradáveis de quem não gostava, contanto que não ficasse só.
Lembrei-me do jornalista carioca Gilberto Amado que declarou: “Chato é aquele que não nos faz companhia e nos rouba a solidão”. Nunca me senti tão só no meio de pessoas como naquele momento. Fiquei triste não por mim, mas pelas pessoas que ali estavam e não sabiam ficar sozinhas.
Não participei da conversa por dois motivos. Primeiro não costumo disputar oportunidade para falar, segundo minha revelação seria chocante porque contrária a de todas as pessoas presentes.
Adoro ficar só.
Amo o silêncio
Gosto de ver e ouvir a natureza.
Sensibilizo-me diante de uma paisagem, uma flor silvestre surgindo do acaso, canto dos pássaros, voz das folhas roçando-se umas contra as outras, barulho da água escovando a rocha, terra seca absorvendo a água da chuva como um mata borrão. Fico fascinada quando o relâmpago rasga a cortina da noite e comanda espetáculo de luminosidade intensa e inimitável, ritmado pelo som inconfundível do trovão. No mesmo cenário quando o sol astro principal do dia focaliza os majestosos monumentos de nuvens esculpidos pelo vento.
Os direitos a esses shows gratuitos são reservados aos que escolhem a direção certa. Isto é, olham para cima e para o alto.
Tudo isso me encanta porque tem cor, ritmo, som, forma e dimensões próprias.
Um amigo perguntou-me certa vez do que eu mais gostava: de pensar, entre outras coisas respondi. Curioso como só o bom jornalista consegue ser, continuou; “No que você mais gosta de pensar?” Perplexo ficou quando respondi: “Em nada”. Mas como não pensar em nada?
Claro que as pessoas que apreciam estar cercadas de barulhos por todos os lados não vão entender que é sem pensar em nada que descobrimos o único canal pelo qual podemos entrar em sintonia com a natureza. Poderia escrever sobre compreender o NADA que nos é revelado na plenitude do silêncio.
O leitor deve estar a indagar: É fácil não pensar em nada?
Necessário é um treinamento. Uma coisa garanto, quem consegue, jamais abandona o hábito pela sensação e plenitude que a prática proporciona.
Não pensar em nada equivale a fazer um relax mental. É desfazer nódulos causados pelas tensões alimentadas por pensamentos que representam situações conflitantes. É não pensando em nada que podemos encontrar a direção que nos leva a fascinante aventura de nos conhecer.
Quando descobrimos o verdadeiro EU, abandonamos qualquer tipo de dependência e medo.
Poderia haver aulas de solidão.
Criar condições para que a criança descubra que a reflexão deve sempre preceder a ação.
Das minhas muitas horas de reflexão descobri maravilhada que: SOU AMANTE DA SOLIDÃO, MAS NÃO TENHO VOCAÇÃO PARA VIVER SOZINHA.