- “Foi Deus quem quis”- justificava aliviada dona Raimunda, moradora da favela da Muriçoca, quando desenvolvíamos trabalho assistencial com o Grupo ACAD, naquele recanto periférico da cidade de Fortaleza.
Ela se referia ao grande número de filhos que nunca permanecia o mesmo a cada nove meses.
“Foi Deus quem quis” era a frase mágica que eliminava qualquer participação sua e de seu companheiro no ato de procriar, deixando-os livres para a próxima multiplicação.
Esse fato me fez lembrar Pedro Zuza vaqueiro do meu avô, quando antes de praticar qualquer ação dizia: -“com os querê” de Deus.
Apoiado nessa transferência de “querê”, passou a se exceder em tudo, até “batizar” o leite com água. Este passou a chegar do curral, quase tão azul, quanto o “céu” do deus de Pedro Zuza no interior do Ceará.
Colocar culpa em Deus, eis uma posição cômoda porque nos alivia do peso da culpa.
Os troféus ganhos nas vitórias, creditamos ao nosso talento, mas, as derrotas resultantes das desproporções do plano, com a linha de ação traçada para sua execução, os acidentes provocados por displicência ou imperícia, atritos de conseqüências desastrosas derivados de má administração de divergências, tudo isso e muito mais, debitamos na “Vontade de Deus”.
No “currículo” de qualquer pessoa que se classifique como fracassada, figura tópicos marcados por nomes de pessoas e fatos que julga , impediram seu sucesso.
Poucos são os que catalogam os pseudo-culpados, sabem cavar mais fundo o abismo que os separa da auto-realização.
O avançado Mestre indiano Sri Ramakrishna, contou a história de homens que vagueavam por um bosque de mangueiras examinando os galhos e as folhas. Outro porém muito mais sábio, comeu as mangas.
Sabedoria consiste em assumir os erros cometidos, capitalizando-os como experiência. Esses têm garantida a vitória, porque não culpam os pais, os professores, a Nação, a inveja, os feitiços, a posição geográfica de sua cidade o Criador do Universo, pela sua falta de sorte.
Estão convictos de que Deus lhes deu Dons mas ninguém pode assinar por eles esse contrato com a vida para administrar esses talentos.